Antevisão — Liège - Bastogne - Liège
Vitória fácil de Seixas ou duelo com Pogačar? Com Remco pelo meio pode ficar feio.
Introdução
O último monumento primaveril é uma clássica que me dá sempre sensações mistas. Por um lado dado o seu percurso, proporciona sempre grandes espetáculos, é uma corrida que ao contrário da Flèche convém mesmo ver desde o início. Por outro simboliza o término da minha época preferida do ciclismo, as clássicas da primavera.
Curiosamente o momento que mais me marcou foi a vitória de Maxim Inglinskiy, "compadre" de Alexander Vinokourov em 2012 frente a Vincenzo Nibali. Numa fase em que o italiano da Liquigas seguia isolado para a vitória, do nada aparece o cazaque e tira a vitória ao tubarão do estreito.
Uma corrida que já vai para a 112.° edição é um autêntico monumento do ciclismo. Desde 2021 que conhecemos apenas dois vencedores aqui, Tadej Pogačar (2021, 2024 e 2025) e Remco Evenepoel (2022 e 2023). Curiosamente apenas no ano passado se enfrentaram de "igual para igual", embora escrever isto seja uma força de expressão, pois Remco terminou a mais de 3 minutos de Pogi.

No entanto, o Remco do ano passado era um Remco que ainda sentia alguma falta de ritmo devido à lesão que lhe comprometeu o arranque de época, já este ano não há desculpas. Remco vem de vencer a Amstel Gold Race e teve uma preparação perfeita, ar condicionados estragados à parte. Mas não será só Remco, existe também um adolescente francês com costela portuguesa de nome Paul Seixas, que vem de vencer a Flèche Wallone superando até o tempo que Pogi fez no Mur de Huy quando triunfou.
Já vimos Seixas a quase acompanhar Pogačar na Strade Bianche, porém o francês parece-nos estar num momento de forma ainda melhor após vencer a Itzulia e a Flèche de uma maneira semelhante à de Pogačar.
Ainda assim tudo aponta para o esloveno levar a 4.ª Liege igualando assim o mítico Alejandro Valverde, conhecido por "Bala" pelos fãs e por "A múmia Murciana" pelos ha(y)ters. Eddy Merckx é o detentor do maior número de vitórias aqui com 5, um record que está em vias de ser batido pelo slovalien.
O percurso
Quilometragem de monumento, 259,5 quilómetros Até à chegada à Cotê de Wanne, situada no quilómetro 171, a corrida será mais morna. Vamos ter a fuga inicial com o pelotão a controlar.

Com a chegada da Wanne entramos na fase mais importante da corrida, com muito sobe e desce inclinado e começam a surgir as colinas mais famosas. As colinas antes da La Redoute vão servir para separar o trigo do joio, com alguns teoricos candidatos a um bom resultado a ficaram para trás.
Chegamos então a La Redoute (1.6 km a 9,3%) e será aí que teremos o primeiro ataque de Pogačar. Situada a cerca de 30 quilómetros da meta, é a subida mais emblemática da prova. Temos depois uma colina de falso plano e posteriormente a Côte des Forges (1.3 km a 7,7%). Finalmente aproximamo-nos da outra subida emblemática da corrida, a Côte de la Roche au Faucon, cujo cume se situa a pouco mais de treze quilômetros da meta. Quem pensa que as côtes acabaram está enganado. Após uma curta descida, os ciclistas seguem num terreno bastante irregular com zonas até 10% de inclinação. Por fim temos 10 quilómetros mais fáceis até à linha da meta.
O que esperar
Um ataque de Pogačar para a vitória. Se bem que este ano Remco está claramente mais forte e existe também o jovem talento Paul Seixas. Apesar de existirem mais nomes interessantes só estes dois podem ousar tentar acompanhar o esloveno. No entanto acredito que mais tarde ou mais cedo, Pogačar se consiga livrar dos dois, ou pelo menos de um dos dois, provavelmente Remco. Seixas parece-me estar num momento de forma incrível e estas subidas embora duras não são tão duras como seria do agrado para Pogačar, pelo que não descarto Seixas conseguir acompanhar Pogačar até à meta. Um cenario pouco provável mas não impossível.
Se o primeiro lugar parece uma mera formalidade, a luta pelos restantes lugares no podio não será. Para mim Remco parte de igual para igual com Seixas e vai ter aqui um grande desafio para se conseguir livrar do prodígio francês. Sabemos que o ex-novo Merckx já teve este estatuto de jovem promessa e com o feitio que tem certamente fará de tudo para evitar que Seixas consiga fazer ainda mais do que Remco fez na idade dele. Caso cheguem os dois juntos, dou favoritismo a Remco, mas não descarto Seixas, que embalado pelo ataque de Pogačar pode conseguir acompanhar mais de perto o esloveno e não ceder tanto, ao contrário de Remco.
Favoritos
Tadej Pogačar — Enfim não há muito a dizer, apesar de ter perdido Paris- Roubaix esta é uma prova bem mais ao jeito das características de Pogi e tudo o que não for a vitória será uma grande surpresa.
Remco Evenepoel — Após uma vitória convincente, mas não dominadora, na Amstel, Remco está em boa forma e vem para esta corrida com ambições de triunfar pela 3ª vez. É nestas provas que Remco tem efetivamente alguma hipótese face a Pogačar.
Paul Seixas — Fez parecer subir o Mur de Huy fácil na Flèche onde não só triunfou pela primeira vez na sua primeira participação (algo que Pogačar não conseguiu fazer), como bateu o tempo de subida do esloveno no ano em que triunfou. O falso plano estava certo, este Seixas é mesmo qualquer coisa e as comparações com Pogačar são inevitáveis. Ainda assim acho que ainda não será desta que vai conseguir bater Tadej Pogačar, mas andará lá perto. Para mim faz melhor que Remco.
A não perder de vista
Mattias Skjelmose — Único a acompanhar até ao fim Remco na Amstel e mal posicionado na Flèche, o dinamarquês até não tem um bom histórico nesta corrida (melhor resultado foi um 9.° em 2023) mas arriscamos dizer que nunca esteve tão bem à partida desta corrida como este ano.
Kevin Vauquelin — Fez a subida final da Flèche na bicicleta do seu colega Axel Laurance, após um problema mecânico já na fase final da corrida. Este aspeto afetou certamente a sua performance na subida final. Ainda assim a queda que teve na Amstel não parece tê-lo afetado muito. Nome bom para disputar o lugar do Landismo, o 4.º.
Tom Pidcock — Após uma queda que podia ter sido ainda pior na Catalunha, Pidcock recuperou mais cedo que o previsto e foi aos Alpes, onde até ganhou uma etapa. Mal ele não está, mas não me parece estar a 100%. Mesmo assim poderá ser suficiente para um eventual top 10.
Romain Grégoire — Estreia nesta prova, pedala em boa forma, mas o acumular de subidas será demasiado para ele poder lutar pela vitória. Ainda assim, é nome seguro para os primeiros dez.
Mauro Schmid — Tem feito talvez a sua melhor época de sempre, algo confirmado com o seu 2.° na Flèche. Não tem o melhor registo aqui, mas se há época onde pode contrariar as estatísticas é esta.
Apostas falso plano
André Dias — Alessandro Pinarello bate Pogi ao sprint.
Henrique Augusto — Remco Evenepoel. As voltas que a vida dá, agora é o underdog e torço por ele.
Miguel Branco — Mauro Schmid. Aproveita a marcação cerrada entre Pogi e Seixas.
Miguel Pratas — 4/5 Pogi.
Nuno Gomes — La Doyenne não é para príncipes. Respect King Poga!
Nuno Silva — Ainda é Tadej Pogačar a ganhar, mas o fim está para breve.
Rogério Almeida — Pidcock fecha o pódio.
Vítor Ferreira — Aqui não chega ser bom, tens de ser a Liègenea - Tadej Pogačar.